Sexta-feira, Julho 23, 2010
LISBON REVISITED (1926)
Álvaro de Campos
Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.
Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.
Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...
Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.
Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.
Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?
Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.
Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...
Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...
Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!
postado por: Renato Garrido 11:15 PM
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Domingo, Junho 27, 2010
Os ventos e a rosa monocromática
por Renato Garrido de Barros
O vento que sopra o fim do inverno
Desabrocha pétalas monocromáticas
De formas geométricas elementares
Que enfeitam a cartografia do acaso.
Como se o acaso registrasse em mapas
Os caminhos apontados por estrelas
Ou, aos cardeais, não mais importasse
Os rumos enviesados da humanidade.
Dos efeitos colaterais do universo,
Que perturbam olhares desorientados,
A rosa mostra para onde sopram os ventos
E sonhos inflam as velas de mil barcos.
postado por: Renato Garrido 2:11 AM
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Quinta-feira, Janeiro 21, 2010
fitter, happier, more productive, comfortable, not drinking too much, regular exercise, at the gym (3 days a week), getting on better with your associate employee contemporaries, at ease, eating well (no more microwave dinners and saturated fats), a patient better driver, a safer car (baby smiling in back seat), sleeping well (no bad dreams), no paranoia, careful to all animals (never washing spiders down the plughole), keep in contact with old friends (enjoy a drink now and then), will frequently check credit at (moral) bank (hole in wall), favors for favors, fond but not in love, charity standing orders, on sundays ring road supermarket (no killing moths or putting boiling water on the ants), car wash (also on sundays), no longer afraid of the dark or midday shadows, nothing so ridiculously teenage and desperate, nothing so childish - at a better pace, slower and more calculated, no chance of escape, now self-employed, concerned (but powerless), an empowered and informed member of society (pragmatism not idealism), will not cry in public, less chance of illness, tires that grip in the wet (shot of baby strapped in back seat), a good memory, still cries at a good film, still kisses with saliva, no longer empty and frantic like a cat tied to a stick, that's driven into frozen winter shit (the ability to laugh at weakness), calm, fitter, healthier and more productive a pig in a cage on antibiotics.
[This is the Panic Office, section nine-seventeen may have been hit. Activate the following procedure.]
Radiohead
postado por: Renato Garrido 12:07 AM
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Sábado, Dezembro 12, 2009
Canção depois de tanto
Vamos beber qualquer coisa,
que a vida está um deserto
e o coração só me pulsa
sombras do Ido e do Incerto.
Vamos beber qualquer coisa,
que a lua avança no mar
e há salobros fantasmas
que não quero visitar.
Vamos beber qualquer coisa
amarga, rascante, rude,
brindando sobre o já frio
cadáver da juventude.
Vamos beber qualquer coisa.
O que for. Vamos beber.
Mesmo porque não há mais
o que se possa fazer.
(Ruy Espinheira Filho)
postado por: Renato Garrido 5:53 PM
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Terça-feira, Outubro 13, 2009
O Fantasma de Baltimore
por Renato Garrido de Barros
Às noites escuras de chuva, quando a luz me falta,
A chama de uma vela me entrega a leitura ingrata,
Que, por vezes, traz a assombração de um falecido
Senhor ilustre que não conheci enquanto era vivo.
A fantasia aterrorizante escrita nos meus livros
De um autor finado sem funeral para os amigos
Reverbera o espectro de um morto desesperado
Que emerge soturno em meio a trevas do passado.
À época da morte, o corpo foi velado às escondidas –
Depois de cento e sessenta anos de tristeza e agonia,
Seus amigos já partiram, mas enterram-no com honrarias.
Do espírito que vaga delirante pelas ruas de Baltimore
Com certeza a alma do morto persiste além disso
Nas páginas de um livro que jamais será escrito.
“It's all over now: write Eddy is no more”
postado por: Renato Garrido 3:02 PM
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Segunda-feira, Julho 20, 2009
'consuetudo consuetudine vincitur'
postado por: Renato Garrido 12:25 PM
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Quinta-feira, Julho 16, 2009
'Ninguém sabe que coisa quer,
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
(...)
Valete, Frates'
(
Fernando Pessoa, trecho do poema 'NEVOEIRO')
postado por: Renato Garrido 2:02 PM
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Sábado, Junho 27, 2009
"Numa das fases da vida da estrela, quando ela é grande e tem baixa temperatura, é chamada de gigante vermelha. Depois, quando perde camadas e vai se tornando mais quente e mais densa, chamam-na de anã branca. Em seguida, ela pode atingir um ponto crítico causando uma explosão que se conhece por supernova."
(retirado de um papel de bandeja da Mc Donald's em 26 de junho de 2008)
postado por: Renato Garrido 11:04 AM
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Domingo, Abril 05, 2009
Supernova, a morte de uma estrela
por Renato Garrido de Barros
Fecham-se as cortinas de um espetáculo inacabado
Da luz que emanava dos confins do espaço
Os olhos agora só vêem restingas do passado
Enquanto de trevas se preenche o último ato.
Da fonte estéril que, um dia, de brilho, inundava
Os vazios entre as galáxias, resta ainda um sopro:
O reflexo da luminosidade que no tempo ainda viaja
No desgosto preterido de um beijo sobreposto.
postado por: Renato Garrido 5:34 PM
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Sábado, Março 14, 2009
Um filho - Parte I
Não se escreve uma dissertação: se pari uma dissertação. Isto já não é lá grandes novidades, talvez, seja quase que mais um dito popular. Recentemente gerei uma monografia, por isso, o desabafo deste texto. Para fundamentar esta relação, esboço aqui algumas semelhanças e diferenças entre o estado interessante e a produção das tais obras acadêmicas.
Em primeiro lugar, vamos às gestações, mais marcadas pelas diferenças do que pelas similitudes. Bem, o período gestacional biológico, todos sabem, gira em torno dos tão confabulados nove meses. Em geral, há um clima de grandes expectativas e, como o tempo é relativo, entende-se este período como suficientemente “demorado” frente aos ânimos mais aflorados dos pais mais desejosos. A gestação dissertativa, por sua vez, e a chamemos assim, ocorre, no mínimo, ao longo de dezoito exaustivos meses. Há uns desvios para menos ou para mais a depender de algumas variantes que não vem ao caso, mas, o dobro do tempo de uma gravidez biológico seria uma média razoável.
Bem, não importa exatamente o quanto de tempo ambos os “projetos” ocupam em nosso corpo: seja no ventre, seja na mente. Há algo que torna a qualidade do tempo, e não quantidade, radicalmente diferente entre um processo e outro. É que na gravidez biológica, a progressão dos estágios embrionários é sempre linear até o tão esperado e feliz nascimento do rebento. A futura mamãe sente-se mais mãe a cada passagem dos dias, das semanas, dos meses. Passado o primeiro crítico trimestre de formação, da tal embriogênese, daí ele, o feto só cresce: o bebê se impõe, pouco a pouco, como uma nova pessoa para este mundo. A dissertação não. A sua progressão é absolutamente a-linear, para não dizer, em um impulso mais pessimista, caótica. Mas avancemos um pouco mais neste ponto.
Uma tese é uma sucessão de idéias, normalmente, manuscritas meio que disformes, em pedaços de qualquer papel ou na tela do inseparável monitor, espécie de útero artificial. Idéias estas, é sempre bom lembrar, abortadas uma a uma até que se chegue a um estágio, digamos, “academicamente”, aceitável. O estágio aceitável, portanto, é fruto de uma exaustiva seqüência de vai e vem; de expansão e de contração das idéias; de escritos e reescritos; de muitos rascunhos condenados à lata de lixo dos experimentos. Por tudo isso, a progressão não linear referida. Cabe ainda ressaltar que não importando o quão caótico possa ser o processo da escrita, o prazo de nascimento da monografia é sempre escasso, urgente, assustador. O tempo é, de fato, relativo!
postado por: ana clara 2:32 PM
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